O baque surdo de seus saltos batendo no chão da cozinha me acordou. Ouvi enquanto enchia um copo, provavelmente de água gelada, sua preferência. Deve ter tirado as botas enquanto deliciava-se com o insípido líquido, pois ao entrar no quarto, seu andar era silencioso. Parou em frente ao espelho, colocou as mãos por baixo do vestido e desceu a meia calça até os tornozelos, quando a puxou pela ponta, primeiro a esquerda, depois a direita. Esticou-a e dobrou-a enquanto dirigia-se até o guarda-roupa, onde guardou a meia na primeira gaveta.
Parou por um instante, pegou o creme e pôs um pouco na mão, o cheio de lavanda invadindo minhas saudosas narinas, levantando novamente o vestido e espalhando-o pelas nádegas, coxas, joelho, e finalmente, tornozelo. Repetiu a operação na outra perna, então esfregou as mãos e passou-as pelo pescoço e nuca completamente visíveis e dolorosamente tentadores, devido ao alto rabo de cavalo de onde pendiam seus cabelos tingidos em forma de espiral.
Finalmente, desceu o zíper e tirou o vestido, ficando apenas de calcinha. Uma calcinha normal, branca, nem grande nem pequena, somente o que se espera de uma calcinha. Os seios não eram grandes nem pequenos, comuns, apenas o que se espera de seios. Caminhou até o espelho, desamarrando o cabelo e ajeitando-o com a mão, talvez com esperança de que acordasse menos bagunçado. Caminhou até a cama, onde se deitou ao meu lado - o cheiro de seus cabelos me enlouquecendo – sem tomar conhecimento de minha existência.